Não escrevi essa semana... podem me chamar de preguiçoso ou qualquer outra coisa, não tem problema... Mas como sou um cara muito generoso (risos), vou publicar a crônica da Rosi, uma escritora que sou fã!
Com vocês ...
O PEIXE BAILARINO
Rosi Luna
Faz de conta que história de pescador é bem assim, você pesca uma piaba e fala que pescou um tubarão, se não aumentar perde a graça.
Faz de conta que você pensa em aumentar essa história que começou com um minúsculo peixinho e que alcançou tantas proporções.
Faz de conta que chegou um peixe na sua casa, ele veio em um saco plástico e foi dado de lembrancinha em uma festa infantil. Ele é um intruso na sua vida, apesar do seu signo ser áquario, você nunca pensou em criar peixe no cativeiro.
Mas ele chegou e precisa de lugar pra ficar. Você abre todos os armários da cozinha e percebe que em toda a sua louça, não tem nada suficientemente fundo para abrigar o novo hóspede. A única saída é ir na vizinha do apartamento da frente. Já é tarde da noite e não vai dar pra comprar áquario a essa hora. A vizinha arruma um pirex verde escuro, e você coloca o peixe lá dentro.
Faz de conta que o peixe corre de alegria pelo pirex, rodopia, mergulha, pra quem estava morando em um saco plástico, aquele pirex era um verdadeiro palacete. A lembrancinha é um kit com peixe, comida e ainda tem as instruções de como alimentar. No fundo mesmo, você não queria que tivesse nenhum peixe ali na sua frente. Mas como fazer de conta que não viu a carinha de felicidade estampada do seu filho, com seu primeiro bichinho de estimação. O jeito é encarar e tentar observar aquele peixe, e cuidar para que sua estada seja o mais agradável possível. O lugar escolhido para o pirex é em cima da sua pia, isso quer dizer que a partir de agora, nada de respingos de gordura e nem de detergente, tudo pode afetar a rotina do peixe.
Faz de conta que a sua vida que antes era tranquila passa a girar em torno do peixe. Seu filho acorda falando do peixe, almoça falando do peixe e dorme querendo levar o peixe para a cama. Só se fala em peixe e isso já dura uma semana.
Faz de conta que você acredita que não vai olhar aquário, pois você sabe que vida de peixe recluso talvez seja curta e não vale o investimento.
Faz de conta que você esqueceu o que tinha dito antes e foi na tal loja de aquário e ficou chocada com a quantidade de assessórios que o vendedor queria lhe empurrar. Era simples; aquário, pedras, luz azul, pastilhas, bomba, enfeite, papel de fundo, plantas plásticas. Quando ele traz a conta, quase duzentos reais.
Faz de conta que você tem uma atitude imprevisível e faz a singela pergunta:
- Quanto custa um peixe como esse aqui? E aponta para o que seria um irmão gêmeo do que vivia tranquilamente no pirex.
- Ah! Esse peixe custa só cinquenta centavos.
Você olha para o vendedor e argumenta.
- Quer dizer que para cuidar de um peixe de cinquenta centavos, preciso levar toda essa parafernália caríssima?
Faz de conta que você finge não notar os olhinhos do seu filho brilharem de tristeza, quando diz que vai pensar mais um pouco e que não iria levar nada. Ainda deu tempo de perguntar ao vendedor lá em um cantinho da loja, quanto tempo de vida teria ele sem a bomba de ar. O vendedor deu uma média de vida de quinze dias.
Faz de conta que você passa a observá-lo todos os dias, e mesmo sem querer, começa a se afeiçoar ao peixe. Ele estava ali rodopiando na água, e quando você estava sem idéias, ia lá tomar conselhos. As vezes dividia até a solidão de algumas horas, e já o sentia seu companheiro de mergulho ou de meditação profunda.
Faz de conta que você notou que tinha algo em comum com o peixe. Quando batia uma tristeza vocês gostavam de afundar, afundar, afundar e quando batia uma alegria, vocês gostavam de dançar. A diferença básica estava no habitat, ele morava em um apertado pirex e você morava em um apertado apartamento.
Faz de conta que você está no computador só vestida de camiseta e calcinha e está terminando um texto importante. Seu filho que só respira peixe faz alguns dias, lhe avisa que está na hora de alimentar o bichinho de estimação. Você pensa em não parar naquele momento, mas algo lhe impulsiona e você vai na frente e acende a luz da cozinha.
Faz de conta que você olha para o pirex e o peixe não está lá. Você dá um grito de pavor e vê o peixe todo roxo pulando no chão da cozinha.
Faz de conta que é uma cena de filme surrealista, você abre a porta do apartamento e sai gritando pela vizinha que é super corajosa e nem lembra que estava vestida apenas de camiseta. A vizinha pega o peixe com dificuldade e consegue colocá-lo de volta no pirex. Depois de tanto susto o peixe fica paralisado.
Faz de conta que você achou que ele estava morto, novos gritos de pânico e a gente dá um tapinha de leve nele. Ele rodopia e enfim assustado, tem uma diarréia e você vê exatos três rolinhos saindo. Não era pra menos depois daquele susto, tinha mais é que se aliviar.
Faz de conta que sua vizinha morre de rir de ver você de calcinha. Você ri nervosamente por não ter tido coragem de salvar sozinha seu companheiro bailarino das águas.
Faz de conta que dá para perceber que você parece um peixe assustado, você tem medo de muitas coisas, e de muitas sensações diferentes. Os dias foram passando e você passou a respirar peixe de manhã, de tarde e de noite. A essa altura ele já era o seu bailarino preferido, pois você fica imaginando que grande salto ele deu pra pular do pirex e mesmo assim conseguir sobreviver.
Faz de conta que você faz um comparativo, você também dá muitos saltos pra tentar sobreviver nesse redemoinho chamado vida.
Faz de conta que você acha que tudo ia bem, quando quase nos exatos quinze dias de pirex, o peixe começa a ficar apático e mostra sinais de cansaço evidente. Foi um domingo de terror, na sua pia já estavam dois baldes, outro pirex e tudo foi feito para que ele voltasse rodopiar no seu ballet aquático.
Faz de conta que ele morre e você precisa ensinar ao seu filho a primeira sensação de perda. Você conhece tudo sobre essa sensação dura, fria e difícil, mas não tem palavras pra explicar.
E chorando arruma uma caixinha de fósforo e uma cruz feita com dois palitos de dente, chama sua vizinha e convida para o velório do peixe. Aos prantos você promete comprar outro peixe, mas seu filho não aceita, ele queria o "seu peixe", aquele que jazia inerte na caixinha de fiat lux.
Faz de conta que só nessa hora você percebe que não era cinquenta centavos o valor do peixe, era o tamanho do amor que ele tinha que nenhuma moeda seria capaz de comprar.
Faz de conta que choveu torrencialmente e com o rostinho em lágrimas seu filho inconformado pergunta se o peixe está bem lá na árvore que o enterramos. Respondo que agora ele deveria estar muito bem pois ele estava nadando rumo ao céu. Afinal de contas o peixe que tinha se convertido ao catolicismo nos últimos minutos de vida e agora já tinha até virado peixe-anjo-nadador.
Faz de conta que passasse no dia seguinte um fumante e achasse aquela caixa de fósforo no chão, pois a cova era rasa e provavelmente com a chuva ela saiu do lugar. Imagino a cara de espanto do fumante ao abrir pensando em achar fósforo e indo dar de cara com um peixe morto. Podia levar um susto tão grande que podia parar de fumar. E sem querer ser partidária da liga anti-tabajista, mas que você ia gostar você ia e seu amigo peixe com certeza ia rodopiar bailarino de alegria.
Faz de conta que você confessa que é da geração saúde, não bebe, não fuma e adora corpo em movimento.
Faz de conta que você inventou tudo isso, mas que era tudo a mais pura verdade e que agora você está de camiseta com calcinha de novo. E você tem certeza que o malandro do seu vizinho vai ficar torcendo pra você sair assustada com as pernas e a calcinha de fora.
Faz de conta que é Páscoa e você não quer comer peixe, e você promete que vai resistir aos quitutes da Inajara, mas quando você sentir aquele cheiro de tempero baiano você vai cair de boca e nem vai lembrar da promessa.
Faz de conta que amanhã você vai olhar aquário: é no jornal, na coluna de horóscopo.
Faz de conta que acredita...
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bom fim de semana e um abraço!